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Um blog feito à partir de meus ideais e minhas teorias. À favor da mídia alternativa.


Apesar deste mau arranque, o fervor das feministas portuguesas (lideradas pelas célebres ‘três Marias’) não esmoreceu. A partir daí, empenharam-se em destruir todos os símbolos femininos, considerados sinais de ‘escravidão’. Os cabelos compridos eram identificados com as mulheres? Pois cortem-se os cabelos! As saias eram usadas pelas mulheres? Pois vistam-se calças! Os sapatos de salto alto só eram calçados por mulheres? Pois acabe-se com os saltos e calcem-se mocassins! E assim por diante. Tudo o que, de perto ou de longe, cheirasse a ‘feminino’, era imediatamente banido e lançado à fogueira. Vivia-se o renascer do espírito do auto-de-fé.




Ora ouvireis, camaradas,
Uma história de pasmar.
Passava já de ano e dia
E outro vinha de passar,
E o Rebelo não cansava
De dar guerra ao Salazar.
De dia tinha o mar alto,
De noite, luta bravia,
Pois só ama a Liberdade,
Quem dá guerra à tirania.
Passava já de ano e dia...
Mas um dia, por traição,
Caiu nas mãos dos esbirros
E foi levado à prisão.
Algemas de aço nos pulsos,
Vá de insultos ao entrar,
Palavra puxa palavra,
Começaram de falar
- Quanto sabes, seja a bem,
Seja a mal, hás de contá-lo,
- Não sou traidor, nem perjuro;
Sou homem de fé: não falo!
- Fala: ou terás o degredo,
Ou morte a fio de espada.
- Mais vale morrer com honra,
Do que vida deshonrada!
- A ver se falas ou não,
Quando posto na tortura.
- Que importam duros tormentos,
Quando a vontade é mais dura?!
Geme o peso atado ao potro
Já tinha o corpo a sangrar,
Já tinha os membros torcidos
E os tormentos a apertar,
Então o Jaime Rebelo,
Louco de dor, a arquejar,
Juntou as últimas forças
Para não ter que falar.
- Antes que fale emudeça! -
Pôs-se a gritar com voz rouca,
E, cerce, duma dentada,
Cortou a língua na boca.
A turba vil dos esbirros
Ficou na frente, assombrada,
Já da boca não saia
Mais que espuma ensanguentada!
Salazar, cuidas que o Povo
Te suporta, quando cala?
Ninguém te condena mais
Que aquela boca sem fala!
Fantasma da sua dor,
Ainda hoje custa a vê-lo;
A angústia daquelas horas
Não deixa o Jaime Rebelo.
Pescador que se fez homem
Ao vento livre do Mar,
Traz sempre aquela visão
Na sombra dura do olhar,
Sempre de boca apertada,
Como quem não quer falar. (Jaime Cortesão)
Este poema circulou clandestinamente nos anos trinta e foi publicado no Avante em 1937 .

